Exercício de suspensão
Um
carro avança em certa direção. Ele não acelera e nem freia, ele segue todas as
leis exigidas. O seu objetivo é chegar ao seu destino; vivo e no tempo certo,
sem atrasos. Ele tenta não bater em ninguém e não perder o fôlego para subir a
ladeira. E então o carro para, e o desespero se instala. O carro pode ter
morrido, ele não se move. Ele não sobe, mas também não desce. Ele tenta se
mover, mas parece que suas rodas estão pregadas. Algumas buzinas começam a
tocar, uma fila se forma atrás dele. Não tem direita ou esquerda, ele não
consegue se mexer.
Eu
odeio subir ladeiras de carro, o risco de ele cair é grande. O medo me consome,
a sensação de queda é terrível. Amostras de fogo se formam em minha cabeça. Eu
não quero morrer, a morte significa o fim. Cair machuca, mas não como a morte.
Ficar parada aqui não ajuda, preciso passar. Não quero que o chão se abra, não
posso ser engolida pelo buraco. Faço o sinal da cruz e espero que tudo dê
certo.
Os
carros na fila não esperam, eles dão ré e passam à frente do carro parado. Ele
aproveita uma nova oportunidade e tenta ressuscitar o carro. O barulho volta, o
carro se mexe e vai caindo. Ele consegue parar a tempo de acontecer uma
desgraça. O carro aciona o freio, e pressiona o acelerador. O carro se move
novamente. Ele começa a subir, mas agora ele não para. Ele continua subindo e
não cai, ele não morre.
Eu
não posso ficar parado aqui, esse carro precisa se mexer. Me sinto sufocado com
essa ladeira imensa a minha frente. Não quero cair dela. Subir significa
sobreviver, cair é a ida para o inferno. As lembranças da Kombi caindo ainda
estão vivas. Da queda, ao fogo, do fogo as vidas. Tinha gente lá dentro,
salvá-los foi uma sorte. Nenhum arranhão, nem um fio de cabelo tostado. Nenhuma
morte foi causada, não deu tempo do chão se abrir, nem engolida a Kombi foi.
Mas o medo continua no meu ser. Eu não quero passar por essa sensação, ter as imagens
impregnadas em minha memória já me basta. Agora que ele foi passado pelos
vizinhos, vamos tentar de novo. No início bateu aquele friozinho na barriga, o
carro caiu um pouco para trás. Fiz o sinal da cruz novamente, e o carro começou
a fazer um barulho e pegou velocidade. Ele subiu sem frescura nenhuma, ele não
morreu, desta vez ele ficou vivo, sem nenhum fogo, nenhum arranhão.
O
carro foi guerreiro, não perdeu as forças que tinha. Subiu sem nenhuma
cerimônia. Ele também estava com medo de cair, não queria ser trocado por
outro. O vermelho cintilante era a sua marca. Ele se achava o mais bonito e
sorria para todos quando passava, ainda mais quando conseguia subir a ladeira.
Esse aí até flertava com um piscar reluzente, antes de se estacionar na garagem
e esperar para a próxima aventura.
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